Com a cabeça recostada na Giraflex e um cigarro atrás da orelha, eu preenchia involuntariamente de gás carbônico a repartição que passava de oito a nove horas por dia carimbando, rubricando, conferindo, empilhando, envelopando, classificando e arquivando papéis.
Havia pelo menos uns treze anos que trabalhava naquela firma. Mudei algumas vezes de sala, mas minhas atribuições foram sempre as mesmas. Não estava triste e nem estava feliz. Estar na repartição carimbando, rubricando, conferindo, empilhando, envelopando, classificando e arquivando era um hiato nas vinte e quatro horas de meu dia, como se entrasse em pequenos comas. Comas que eram interrompidos pela coceira que me trazia aquela momentânea e desprezível raiva. A mesma raiva que sentia pelo pipoqueiro depois que descobri sobre seus prazeres inóspitos.
A sala era ocre da nicotina e eu o único funcionário que tinha autorização para fumar, havia conquistado um respeito forçado e uma hierarquia acidental. Depois de alguns anos, fui transferido para a sala com janela. Era a única da repartição, e pequena; quase um erro de engenharia. De um lado da sala, as gavetas de ferro onde jaziam os arquivos, do outro alguns objetos metálicos deformados, retorcidos e irreconhecíveis. Na lâmpada mil ou mais mosquitos secos. Na mesa, pilhas de tamanhos variados com documentos e papéis grampeados, uma ciranda com carimbos de madeira e um porta-retratos com a foto da Malu Mader beirando os trinta, recortada do jornal.
Minha repartição sempre esteve acima do encontro de duas placas tectônicas. A poeira acumulada deslocava, os objetos da mesa trocavam de lugar e os papéis corriam sempre o risco de despencar a cada acomodação do planeta. Com calma levantava-me da cadeira, dirigia-me até a porta e esperava o tremor passar embaixo da segurança que o batente trazia, geralmente era expectador do show que os clientes me proporcionavam, assustados no cume da roda-gigante. Todos os passarinhos do continente revoando ao mesmo tempo. Com raiva. Imagino a mesma raiva que sentia pelo pipoqueiro depois de descobrir sobre seus prazeres inóspitos. Nos dias sem tremor, a movimentação do ambiente era dada pelo meu ato semi-involuntário de coçar a ferida que cada dia parecia se ocupar mais do meu organismo.
Meu fracasso profissional sempre passou despercebido pelos outros funcionários, assim como eu mesmo. O fracasso se confunde em vários setores de minha vida. Eu havia contraído uma doença e depois disso, não consegui me aproximar de mulher alguma. Não fui ao médico, me sentia constrangido. Eu achei que aquilo, hora ou outra, ia desaparecer de alguma forma. Mas coçava e o vazio na sala me permitia afagar a ferida quando beirava o insuportável.
O dia amanheceu cinza e o rádio-relógio me despertou com a notícia que anunciava um forte tremor. Vesti minha melhor camisa.
Na estrada, os postes se contorciam e chovia uma poeira elétrica fina. Havia uma estranha energia permeando meu corpo e os objetos num tom agressivo que lhes conferia vida particular. Um leve tremor passou da terra aos meus sapatos e pensei na sala da repartição. O baile na ciranda dos carimbos, objetos retorcidos aderindo uns aos outros, gavetas de ferro batendo, abrindo, fechando, gritando.
Segui adiante pela estrada deixando a repartição para trás, andava com longos passos, contra o vento, meus olhos cerrados pela poeira. Avistei o neon indicativo da entrada do parque e me adiantei em sua direção. Coçava e ventava forte, em passos rápidos, o atrito me aliviava.
O parque ainda estava fechado, empurrei as correntes que giravam com força – deviam ser as Rodex de aço inoxidável que havia faturado alguns meses atrás.
Entrei. Pela primeira vez entrei. Havia uma nuvem cinza metálica atraída pelo magnetismo que circundava a montanha russa de madeira desativada. A roda gigante girava sozinha com fúria, violenta na cadência do vento sul. As tendas dos jogos de azar e tiro, ao revés, determinavam o compasso do carrossel que tocava uma estranha melodia distorcida. Os trailers eram como barquinhos ancorados sacudindo no mar e o túnel do amor vomitava a água e o cenário conforme a força do planeta. Aquela energia era nova, e era minha. Estava quase feliz. Não coçava mais e eu sabia por quê. Esperei que a fuligem cobrisse meu corpo, esperei pelos anões equilibristas, esperei pelo pipoqueiro, pela mulher gorila e esperei de olhos fechados.