vila dos coelhos

era uma vila de dez pequenos prédios, alinhados verticalmente lado-a-lado. em cada um, via-se em torno de quarenta janelinhas, todas com cortinas de renda. entre esses prédios, formava-se um caminho artificial.

todo o caminho era feito de pedrinhas polidas, a cada curva setecentos e oitenda e dois flocos de grama em média por metro quadrado  emergiam da terra socada que o contornava. de treze em treze metros havia uma árvore frutífera plantada na escala cromática; primeiro o pé de laranja lima, uma bananeira, um pequeno arbusto de maracujá, a laranjeira, um pé de caqui pouco maduro, um frondoso pé de manga, uma ameixeira, uma parreira, um pé de amoras e depois um de mirtilo, o abacateiro, um arbusto com melancias, o limoeiro e finalmente um pé de laranja lima novamente. ofélia costumava caminhar com seus coelhos algumas horas por dia. ela era a principal moradora que não utilizava o caminho para cortar o percurso até a portaria dos fundos.

ofélia morava sozinha e ninguém jamais conheceu alguém que pertencesse a sua fictícia familia. no íntimo todos os vizinhos desconfiavam da história de sua vida mas pouco se importavam com isso, na verdade. ofélia mantinha a dispensa com a pensão alimentícia do ex marido pirata. qual será o vínculo empregatício de um pirata com o governo e me interessa saber sobre declaração de impostos e fisco. ofélia gastava metade dessa pensão em cenouras e ração. ela era magricela de um corpo doente. tinha cabelos escuros, volumosos, mas frágeis e quebradiços. os coelhos ela botava pra fora de coleirinha. eram cinco e todos brancos. ofélia seguia caminhando enquanto eles pulavam e embaraçavam as guias enroladas em seu pulso gangrenando pouquinho e devagar, todos os dias era assim. duas, três horas andando.

em quatorze de abril de 1998, ofélia regressou do passeio vestida com chapéu e luvas de lã cor de beringela e viu chamas saindo de sua janela, a cortina de renda era só fuligem. uma multidão de vizinhos observava de baixo, todos olhando para cima como avistando os discos voadores do verão. ofélia observou de longe, sentou na mureta com os coelhos sem soltar as coleirinhas. não havia pago a apólice do seguro e já imaginava como seria a sua vida dentro de um barco usando espadas atravessadas nas costas.

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5 thoughts on “vila dos coelhos

  1. Nina disse:

    Seus textos cada vez melhores.

    Ainda não sei se prefiro seus textos ou seus desenhos.

    Xoxo.

  2. bussyBee disse:

    q susto! achei q era um texto q eu mesma tinha escrito, eskecido num caderno de infancia surreal. simplesmente um naum-fracasso.#xorei

  3. fracassos disse:

    se você for a minha vizinha, pode ser que lembre disso de verdade.

  4. Tem o visual de um conto de fadas em stop motion, bem colorido e doente, como ofélia.

  5. ariaround disse:

    Ótimos textos, bia! Me levam pra looonge.
    :)

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