biblioteca em braile

O pó me dá uma alergia complicada, cheia de secreções. Por isso, antes de entrar naquela biblioteca atravessei a praça em Agüero e fui à drogaria comprar um claritin. No caminho de volta, o vento batia contra meu rosto cochichando alguma coisa que não podia compreender.

A biblioteca de Buenos Aires estava ali de novo. Tinha em mãos uma lista de Alfonsinas, Bufanos, Hidalgos e Borges escolhidos a dedo, todos com cadência poética.

- Hola, que tal?

- “Ãn, er… Hola. Tengo aqui algunos libros, hã, livros? Ãnn…quiero que podis, o…puedas achar para mi?”

- Usted puede venir y ver para usted mismo. Gracias. – E com um gesto, a senhorita da recepção tocou na catraca para que eu pudesse entrar.

Aquela sala enorme tinha o mesmo cheiro que todas as bibliotecas do mundo tinham, o que a identificava como autêntica. Talvez Nínive tenha um cheiro peculiar devido aos anos que passou debaixo da terra, mas não chega a descaracterizá-la por completo. Deixei meus pertences em uma mesa coletiva, onde havia dois jovens abrindo mapas, uma senhora de lenço no cabelo lendo uma versão em espanhol de Daniele Still e do lado um senhor acessando arquivos do Clarín em 1975.

- Contos, romances, ensaios, poesias… – entrei no corredor vazio. Todos os livros pareciam dormir no tédio que é passar dias e noites em pé, encostados nos livros do lado. O pó que se acumulava nas prateleiras mais altas insistia em me provocar alguma coisa que o claritin parecia lutar contra.

- Alfonsina Storni, adelante.  – ouvi baixinho.

Olhei para os lados e não vi ninguém. Mas era por ela mesmo que eu procurava. Será a senhorita da recepção que percebeu minha dificuldade lingüística? Então, senti um dedo insistir em minhas costas.

- Ho-hola? Que tal? – Quem será esse senhor?

Ele não olhava em meus olhos. Olhava para o horizonte, e o horizonte da biblioteca era a prateleira U a X, por sobrenome de poetas. Eu não sabia o que dizer para ele por questões lingüísticas, sensoriais, cognitivas e físicas. Eu estava com medo e preferi procurar pelos pelinhos brancos na minha camisa preta antes de fazer qualquer coisa. Serviço concretizado, formei uma bolinha em meus dedos e apertei de nervoso. O que ele queria comigo?

Então o senhor tateou a prateleira da Alfonsina com cuidado sentindo os relevos das lombadas. Por um momento duvidou entre Languidez e La inquietud del rosal mas logo atirou os dedos em Irremediablemente e me ofereceu com um gesto doce. Sorriu, ainda olhando para o horizonte U a X, se virou e saiu correndo pelo corredor. Sobrou só um fenômeno atmosférico que lembrava Absu de água doce. Minha coriza secou.

2 thoughts on “biblioteca em braile

  1. henrique disse:

    Bia, escrevendo cada vez melhor. Esse consegue prender até o fim.
    Nos primeiros ainda era possível ouvir sua voz falando – agora os textos falam mais por si só.

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