joaquim tinha a pelagem lisa, cheia de carrapichos grudadinhos. ao sol, ficava platinado. apesar de sua altivez, era um bicho triste por dentro.
mas sua tristeza era pequena, perto da tristeza que os homens daquele lugar sentiam.
aquele lugar era geograficamente enorme. eram doze campos de graminha rala, cheios de mosquitos que ficavam entrando nas nossas orelhas. as poucas árvores já tinham cargos determinados por sua hierarquia ancestral. as menores, forneciam flores, as médias cediam seus troncos para amarrilho de animais como joaquim. as grandes forneciam frutos e sombra, além de funcionarem como delimitantes das pistas de pouso para teco-teco.
de vez em quando, via-se uma casinha. eram casinhas prosaicas, de madeira, que viviam incendiando. ninguém sabe ao certo se eram combustões espontâneas devido ao calor do trópico e a fragilidade da estrutura ou se era intervenção de deus, e ele queria que assim fosse.
joaquim, amarrado na árvore de tamanho médio não cresceu. era um cavalinho atarracado. chamavam isso de pônei, mas eu sempre achei que fosse um defeito genético. não havia motivos pra deixá-lo solto. era feio, desnecessário e arrogante. olhava com desprezo para tudo que passasse pelo raio de seus olhões esbugalhados. ele usava um relógio antigo preso à pata onde acompanhava hora a hora qualquer coisa que acontecesse.
o carcará tinha aproximadamente a idade de um elefante adulto. morava no topo da árvore grande, que dava fruto e sombra. não teve filhos, dispensava de sua dieta animais em putrefação e zelava pelo habitat dos descampados lugares tristes.
era uma manhã com sol e algum vento, o carcará voltou do vôo de exercício e joaquim estava no topo da árvore grande, que dava fruto e sombra. joaquim lia um livro, com capa dura, forrada de tecido e as páginas eram amarelas. parecia muito concentrado, ora os olhos nas páginas e ora os olhos nas horas. o carcará sem ter onde posar, ficou planando em circulos ao redor da árvore maior, causando um turbilhão invisivel no ar.
joaquim, temeroso com a atitude acrobática do carcará, resolveu descer da árvore grande calmamente, antes que viesse a servir de alimento. ajeitou a escada, e pé por pé chegou ao chão. lá, abriu novamente seu livro, na página 84 e retomou a leitura, das frases e dos ponteiros.
o carcará então posou na árvore grande, que dava fruto e sombra e ficou observando ao longe mais uma das casinhas de madeira incendiando, estralando o vento e tingindo de cinza o céu. alguns homens passavam, de lá, pra cá com baldes, era uma cena bem comum.
joaquim entediado com o marasmo afastava com o rabo os mosquitos.
carcará embriagado pela fumaça tóxica piscava pequenos desmaios.
Que história fantasticamente real e encantadora, de um cotidiano despercebido e possível dos mundos animais. Uma mescla sóbria e aventureira dos clássicos “Revolução dos Bichos e Alice nos País das Maravilhas”, com uma boa pitada ao estilo Guimarães Rosa…
muito bacana o texto,a foto, humildemente nem chega perto de retratar a fabulosa.
Quem sabe uma ilustração colorida não caia bem!