era um banco erudito em uma praça geométrica. de um lado dois caixas eletrônicos ao relento, do outro um cavalo amarrado no tronco de um abacateiro.
ângela cruzou os dedos e os estalou, assustando todas as pombas que estavam ciscando migalhas próximas a seu pé. parecia que ela tinha segredos pouco guardados, que escorriam pelos seus dedos os canalizando de alguma forma no cone do sorvete que ela lambia com eloquência.
ângela sentiu algo se aproximando de suas costas e antes mesmo que pudesse virar e ver o que era, uma mãozinha peluda afagou seu pescoço.
ângela fechou os olhos com um íntimo arrepio. sequer quis saber quem era. deixou que as mãozinhas percorressem seus cachos, suas costas largas, seus seios. um pequeno movimento nos pés e todas as pombas voaram. o sorvete derretendo pintou as mãozinhas peludas de um tom uva.
ângela segurou com força a mãozinha desse sujeito, levantou, agradeceu-lhe e foi embora para casa, pois em sua pia havia ainda muita louça para ser lavada.