Dentro de um guarda roupa, o terno preto de listras invisíveis ao lado de doze camisas iguais, pretas de botões pretos acostuma-se aos olhos. Ramiro só usa seu terno, quando vai a funerais. De dia, seu terno se torna azul de listras finas e brancas. No final da tarde, o pouco sol, atravessando a sombra das seringueiras, torna seu terno, e o do defunto, quase um marrom cheio de azul.
Ramiro tem mania de cortejos e funerais, visita ao menos um por dia. Seja lá quem for o defunto. Chora, por detrás de seus óculos escuros. E cada gota de lágrima que pinga, seu terno muda de cor. Depois, Ramiro toma café.
Durante enterros e cafés, Ramiro ouve Sonic Youth e lê revistas sobre pontes. Pontes de pedra, arcos, pontes estaiadas, pênseis. Ele não liga quando as pessoas analisam seu comportamento, elas julgam por demais superficial, Freud, sexo, traumas, crianças, cocaína. Ele não liga quando o café cai no seu terno, azul que é.
Certa vez, em certo funeral, Ramiro conheceu Arnaldo. Arnaldo estava vestido de barbas longas, mas bem alinhadas. Atrás de sua barba, sua carinha rosada sorria por só estar. Seu terno também era azul. Não como o de Ramiro, com listras brancas. Era um azul que se confundia com o céu daquele dia. Arnaldo era que só barba e carinha rosada.
Arnaldo freqüentava funerais. O silêncio e o timbre do vento que atravessava as lápides era o único que permitia Arnaldo ouvir musica. Tinha a ver com um problema adquirido. Nesse dia, ele ouvia a música sobre um foguete prateado.
Tão logo, viraram parceiros. Cada um no seu azul. Cada azul em seu cigarro aceso. Um livro, uma nota aguda e o vento cortando a serenidade do ar com uma espada. Nunca chegavam muito perto um do outro, nunca trocaram uma palavra. Mas os funerais e cafés se tornaram freqüentes. Pensavam em conversar sobre tantos assuntos, Yves Klein, os Smurfs, Caribe, Picasso, balas de anis, o céu de Paris. Mas o silêncio era a mais clara e bonita comunicação entre eles.
“Can’t forget the flashing, can’t forget the smashing, the sending and the bending, the ampisphere re-entry, you gotta have the time, Got a letter in your mind, gotta heart injection, that you got yourself a line.”
O ultimo funeral que Ramiro cortejou, foi o de Arnaldo. Naquele dia, o timbre das lápides era como o ranger de dentinhos. A cara rosa de Arnaldo olhava para o céu através da janela do caixão. Sua fita do Sonic Youth arranhada cantava a mesma música, e os foguetes prateados alçavam vôo levando Arnaldo para o céu. O céu azul escuro estrelado da cor do terno de Ramiro, cujas listras se confundiam em meio aos galhos da seringueira. Azul do infinito.